sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O paradoxal “keynesianismo financeiro neoliberal”

O crédito, segundo Marx, não é senão antecipação de mais-valia futura, antecipação à qual tem de se seguir a correspondente valorização real do capital. As bolhas financeiras são exatamente a falta da base real da valorização do capital especulativo, que se dá numa dinâmica de lucro rápido. Este processo encontra seu limite através dos seus efeitos inflacionários que atravancam o crescimento econômico. A aceitação da ideologia neoliberal por parte dos Estados Nacionais é simplesmente a homologação de uma sistemática financeira desregulada. Já a questão de intervenção estatal sobre as contradições que trazem os novos paradigmas do sistema econômico não são de modo algum diretamente salutares ao seu funcionamento nem possíveis, pois a estatização da crise leva apenas a um desvio de seus prejuízos, que irão ser absorvidos sem perspectiva de ressarcimento posterior, pois o dinheiro foi aplicado sobre a especulação de capital fictício. O discurso neoliberal se vê, assim, paradoxalmente exigindo o apoio estatal que não deve se importar com os déficits públicos e a taxa inflacionária. Sua contenda deve ser mediada por um administrador nacional da crise que em muitos pontos torna-se gestor anti-social, fazendo-se assim uma dolorosa genuflexão às vontades patronais. Podemos notar esse lado do discurso econômico quando nos detemos à questão dos bilhões dos pacotes de salvamento para evitar o colapso do sistema de crédito, que contém um enorme potencial inflacionário, sem qualquer perspectiva social. Por outro lado, não podemos concluir que essa intervenção estatal irá se enveredar a uma política de provimento de bens indivisíveis e de assistência ao desenvolvimento socioeconômico geral. A política de "Keynes" não irá além de uma reorganização da estratégia neoliberal; a tomada das rédeas da crise pelo Estado, de forma simplificada, poderá agravar o quadro de pobreza, que irá chegar a níveis qualitativamente novos dentro do cenário do primeiro mundo. O ponto crítico poderá vir a ser atingido quando a contaminação geral atingir os setores de serviço financiados pelo capital fictício. Destarte, a crítica de Robert Kurz pode ser encarado com um tom de relutância em face da incerteza que paira sobre o futuro do capitalismo e o futuro do mundo: “É uma idéia sobretudo embaraçosa pensar que a face do capitalismo se há de humanizar justamente sob a pressão do colapso financeiro e da conjuntura econômica em queda. A crise da economia mundial não terá happy end.”

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

"Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." Bertolt Brecht (1889-1956)
"Aprendemos poucas coisas com a história, exceto quanto ao fato de que as ideias se condensam em um sistema de ortodoxia, os poderes em uma forma hierárquica e o que pode dar nova vida ao corpo social enrijecido é, tão-somente, o hálito da liberdade, que entendo seja aquela inquietação do espírito, aquela aborrecimento diante de todo conformismo e que requer abertura mental e energia de caráter."
Norberto Bobbio (1909-2004)